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5x Favela – Agora Por Nós Mesmos

30/08/2010
 

Em 1961, cinco jovens cineastas de classe média, oriundos do movimento estudantil universitário, realizaram o filme Cinco Vezes Favela. Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges eram aqueles jovens que tornaram o filme um marco do cinema moderno brasileiro e um dos fundadores do Cinema Novo. Passados 50 anos, Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos reúne dessa vez jovens cineastas moradores de favelas do Rio de Janeiro, treinados e capacitados a partir de oficinas profissionalizantes de audiovisual, ministradas por grandes nomes do cinema brasileiro. O projeto apresenta cinco filmes de ficção, de cerca de 20 minutos cada um, sobre diferentes aspectos da vida em suas comunidades.


5x Favela – Agora Por Nós Mesmos divide com Tropa de Elite 2  o posto de acontecimento mais importante de 2010 para o cinema brasileiro. Não se trata de ser o melhor filme do ano – algo difícil de almejar para um longa-metragem estruturado em episódios dirigidos por pessoas diferentes –, mas de sangue novo no cinema, seja pela busca de novos caminhos narrativos ou pela origem dos realizadores, todos moradores de comunidades cariocas.

Há 50 anos, jovens de classe média foram ao morro descobrir o Brasil e filmar a favela. Desta vez, o projeto surge como chance para quem veio de lá, com oficinas orientadas por cineastas como Walter Salles, Ruy Guerra e Fernando Meirelles. Com produção de Renata de Almeida e Cacá Diegues, as oficinas viraram cinema. São sete diretores, alguns já com relativa experiência cinematográfica. Curiosamente, a maioria das histórias flerta mais com a comédia do que com o drama e apenas uma delas tem desfecho triste. Como disse o ator (e piadista nato) Gregório Duvivier, “a pobreza no Brasil é cômica ou trágica, mas nunca melancólica”.

No conjunto, 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos é um filme imprescindível para qualquer espectador comprometido com a construção do cinema brasileiro. Para não atropelar as qualidades de alguns episódios, o Cineclick decidiu falar de cada um dos cinco episódios, em ordem de exibição dentro do longa-metragem.


Fonte de Renda, de Manaíra Carneiro e Wagner Novais
O primeiro episódio do longa-metragem lida com o sonho da faculdade, tema caro para qualquer família pobre. O interessante na jovem dupla de diretores é que começamos o filme sabendo que o final é positivo: Maicon (Silvio Guindane) conseguiu se formar em Direito numa instituição pública.

A proposta de Fonte de Renda é fazer uma crônica do que ele passou para chegar lá. Como a parceria Guindane (ótimo ator) e Duvivier (diferente de seu papel em Apenas o Fim) dá muito certo, é fácil a fluidez do episódio. Mesmo assim, falta tensão ao filme para transformar a história de um cara comum em muito particular.

Porém, quando ela chega, Manaíra e Novais conduzem com maestria o confronto violento e afetivo de Maicon e seu padrinho (Hugo Carvana, importante como sempre). Nesse momento, Fonte de Renda acontece.


Arroz com Feijão, de Rodrigo Felha e Cacau Amaral
Esse episódio é uma salada de gêneros. A primeira sequência traz uma câmera que passeia por dentro de uma casa e revela um pouco dos personagens. Moradia pobre, a mãe prepara a marmita, o menino dorme e o pai olha desolado. Parece que vem aí um Drama com “d” maiúsculo, mas não passa de uma saudável tapeação.

Após esse primeiro momento sério, Arroz com Feijão fala das aventuras do menino Wesley (Juan Paiva) e seu melhor amigo, Orelha (Pablo Vinicius) para botar na mesa algo raro no jantar: mistura! Afinal, é aniversário do pai (Flávio Bauraqui) e um pouco de carne numa refeição que só tem arroz e feijão vai muito bem.

Temos um belo roteiro, desenvolvido pela oficina na Cufa, e uma dupla de diretores muito esperta em misturar gêneros e confundir os rumos da história (algo que me fez lembrar os filmes de Samuel Fueller). Em Arroz Com Feijão, começamos num drama social, passamos a uma história com traços psicológicos para desaguarmos na comédia rasgada, com um desfecho cinematograficamente perfeito, digno de aplausos. Surpreendente.


Concerto Para Violino, de Luciano Vidigal
Luciano Vidigal é implacável. Assim como Jeferson De em Bróder, o ator, professor e diretor carioca do Morro do Vidigal reconhece que não há muita saída para seus personagens, amigos na infância, mas de rumos opostos quando adultos. Aqui temos o tráfico abordado diretamente.

Dentro do longa-metragem, Concerto Para Violino torna-se um filme menor não necessariamente pela sua qualidade cinematográfica, mas porque a abordagem ríspida e violenta da favela é com a qual mais temos contato desde Cidade de Deus. Será um exercício muito interessante assistir ao filme num contexto futuro, quando nossos olhos ficarem desacostumados com a tríade favela-pobreza-violência.

O mais surpreendente do filme é Feijão, dirigente do Afroreggae que interpreta o chefe do tráfico. Estamos à frente de um baixinho que, no cinema, é uma mistura de Don Corleone e Stallone Cobra. A junção do passado e presente também dá respiro lúdico a um filme sério. A violência e tragédia também fazem parte do contexto e Vidigal não nos deixa esquecer.


Deixa Voar, de Cadu Barcelos
Entre os cinco episódios de 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, o de Cadu Barcelos é o que melhor explora o clima de tensão a partir de um argumento trivial: a pipa de um amigo cai na favela rival e Flávio (Vitor Carvalho) tem de se atrever a botar os pés na outra comunidade e recuperá-la.

Um jeito muito esperto de trazer a potencial violência para o filme enquanto acompanhamos a atmosfera adolescente de três amigos. Aguardamos ansiosamente a tragédia iminente, mas Cadu Barcelos nos sonega esse momento – decisão sábia. O que importa é a pipa e a liberdade que a infância e a adolescência nos permitem.


Acende a Luz, de Luciana Bezerra
Na labuta desde 92, quando entrou para o grupo Nós do Morro, Luciana Bezerra deixou o clima das comédias italianas penetrar eu seu quinhão do 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos.

Em Acende a Luz, temos uma vizinhança que lida com a pobreza através do riso, não do choro. É época de festas e, na hora de colocar a cerveja para gelar, advinha? Acabou a luz!

O deboche é o elemento que conduz essa história. Imagina celebrar o natal sem energia elétrica na vizinhança inteira? É água no chope! Mas o filme de Luciana subverte alguma de nossas expectativas. Subir o morro inteiro, em vez de problema, torna-se cômico. A revolta dos moradores é desorganizada, meio atrapalhada, metendo os pés pelas mãos.

Eles estão frustrados para, logo em seguida, soltar uma gargalhada. Ou ficam ameaçam o técnico de luz que não resolve o problema, mas lhe oferecem café ou cerveja sem cerimônias. Acende a Luz vai desmontando todas as previsões, inclusive da sensualidade feminina: a musa do filme (Dila Guerra) é pura volúpia, enquanto seu companheiro faz o tipo “maridão coroa topa todas” (João Carlos Artigos). Personagens típicos da classe média.

Ótima maneira de encerrar 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos. Acende a Luz nos diz que vale debochar da vida.



Fonte: Cineclick/Heitor Augusto.




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