Viver bem

O Filme da sua vida
10/03/2010A identificação com personagens e cenas do cinema abre caminho para a autodescoberta e ajuda a resolver problemas. Essa é a idéia da cinematerapia.
O anão de jardim ficara guardado por anos na garagem, mas agora que a mãe de Amélie faleceu, foi colocado junto ao pequeno mausoléu criado para abrigar suas cinzas. O pai de Amélie, então sozinho, nunca aproveitou a vida, mas a jovem sabe como mudar a situação.
Em uma noite, tira o anão do jardim e o entrega para uma amiga aeromoça, que passa a fotografá-lo em diversos lugares do mundo:
Nova Iorque, Paris e até mesmo Camboja. As fotos chegam, uma a uma, ao pai de Amélie e ele não entende como o anão conseguiu ir tão longe. Em um belo dia, entretanto, o anão volta ao seu lugar. No mesmo instante, o homem prepara as malas e sai decidido: direto para o aeroporto internacional.
Ao mesclar imaginação com realidade, o filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, do diretor Jean-Pierre Jeunet, dá a dica: viver é melhor que sonhar mas, às vezes, é necessário um empurrãozinho para dar conta disso. O incentivo pode vir de muitas maneiras e uma delas é indo ao cinema, como sugere a cinematerapia.
O conceito é novo e ainda pouco conhecido no País, mas não é difícil imaginar o porquê de sua importância. Quantas vezes já chorou assistindo um filme e pensou em mudar de vida? Ou ficou morrendo de raiva do bandido? Ou, ainda, se apaixonou por um dos personagens da história e decidiu correr atrás da pessoa que ama? E quantas vezes se viu na telona, como se fosse o próprio ator?
Essa identificação, positiva ou negativa, pode mudar a maneira de encarar a vida ou alguma situação específica ou, ao menos, ser um primeiro passo.
"A idéia da cinematerapia é fazer com que o indivíduo chegue à catarse [aquela descarga emocional imensa, sabe?] na identificação com o cinema", afirma o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, e professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Londres.
"A primeira reação é a de banalizar a experiência. Entretanto, quando reflete sobre o assunto, o indivíduo tem a percepção do caráter didático do que ocorreu."
>>> LUZ, CÂMERA E AÇÃO!
Qualquer pessoa pode se beneficiar desse tipo de terapia, mas é preciso gostar da sétima arte e se abrir a discussões. "Freqüentemente, o cinema tem um potencial de envolvimento que ultrapassa o consciente", alerta Jacob. Por isso, fazer maratonas de filmes em casa tentando resolver algum problema pode não ser suficiente.
"É importante a ajuda de um psicólogo para ir além do que você percebe sozinho", diz o professor. E, claro, não adianta esperar a solução cair do céu. "O terapeuta até pode sugerir filmes aos pacientes, desde que a sugestão se justifique de acordo com cada situação. Mas o melhor é o paciente trazer sua experiência enquanto espectador de uma obra.
O interessante é, a partir da percepção de um filme, recriar a própria história", afirma Renato Tardivo, psicoterapeuta e mestrando em Psicologia Social (literatura e cinema) pela Universidade de São Paulo (USP). Como em qualquer outra modalidade terapêutica, o esforço é a chave para a solução das dificuldades e para o auto-conhecimento. As respostas não estão escancaradas nos filmes, mas podem ser encontradas na leitura que cada um faz.
"É questão de comunicar-se com a obra. São os encaminhamentos dessa comunicação que podem ajudar no tratamento psicológico", orienta Renato. As pessoas mais sensíveis também têm maior chance de se beneficiar dessa comunicação entre cinema e descobrimento pessoal. Isso porque quem não consegue fugir da realidade por uns minutos e entrar no mundo da imaginação pode se esquivar de identificações intensas com personagens e situações vividas na telona.
"Uma variável importante é a fase do tratamento. Quando a psicoterapia engrena e o paciente começa a simbolizar mais, ele levanta situações desse tipo. Vê seu 'filme interno' se diversificar, ser re-criado e ampliado. Identificando-se com um filme, ele, ao mesmo tempo em que é espectador, pode se ver no papel de ator do próprio roteiro", afirma Renato.
>>> RESULTADO ÀS AVESSAS
Os filmes podem ajudar a entender conflitos internos, mas também podem desestabilizar a pessoa, fazendo com que qualquer cena a comova exageradamente, altere as tendências, desencadeie fúria e até reações antisociais. Por isso, a cinematerapia não é um processo isolado e precisa do complemento de outras modalidades terapêuticas para atingir os objetivos na verdade, os propósitos do indivíduo que está insatisfeito. "O filme é um ingrediente, se soma ao tratamento", esclarece Renato. "Situações catárticas podem ajudar, mas são tomadas freqüentemente com entusiasmo excessivo", conta o psicoterapeuta. Aí está o problema. Como tudo na vida, é necessário um equilíbrio até para saber como reagir frente a impulsos que podem ser desencadeados por um filme. "Nós vivemos em um tempo de ritmo vertiginoso que chega a levar a um estresse coletivo. Isso significa dizer que o indivíduo, para fugir da solidão, transforma-se em alguém que assimila qualquer mensagem massificadora como as que percebemos em filmes de sucesso de bilheteria que provocam modas de conduta mundiais", esclarece Jacob. Mas não é fingindo ser alguém que se acha a solução para os conflitos. O cinema não é a saída de todos os problemas, nem paradigma para qualquer pessoa ou assunto. "O paralelo entre cinema e terapia se dá porque ambos se abrem a histórias, reviravoltas, emoções, afetos. Mas o caminho se faz ao caminhar", sugere Renato. Quem o decide? Claro, você.
>>> CENAS DA VIDA
Manuela está no teatro com o filho e assistem a Um bonde chamado desejo. Vinte anos atrás, a própria Manuela atuara na peça, em que conheceu o pai do menino que nesse dia comemora seu aniversário de dezessete anos. Chove forte, mas ele pede de presente à mãe que aguarde a saída da atriz, pois deseja um autógrafo.
Quando ela sai, entra correndo em um táxi e o rapaz a persegue, em busca da assinatura. Mas um carro o atropela e só resta a Manuela também correr, ao encontro do filho. A cena é uma das primeiras do filme Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar e permite ao espectador descobrir algo sobre a vida. É um ingrediente para começar uma reflexão sobre ela, como podem ser tantos outros filmes.
Cada um monta a própria filmografia e muda-a sempre que desejar. De acordo com o psicólogo carioca Márcio Felix, os filmes apresentam histórias em que o espectador se sente na mesma situação do personagem, ou em que ele atua como modelo positivo, podem inspirar as pessoas, servindo em alguns casos como referência na vida. Então, que tal um cineminha?
>>> Cinema em casa
Além da imaginação (e da pipoca), confira algumas películas ligadas a situações cotidianas
SOLIDÃO
Os amantes de Maria, com Natassja Kinski, sobre um marido que não consegue se relacionar com a esposa.
ANGÚSTIA
Mar adentro, com Javier Bardem, sobre um homem deficiente, que coloca o espectador na pele do protagonista.
AMIZADE
Tomates verdes fritos, com Jessica Tandy e Kathy Bates. Trata de amizade, lealdade, moral e companheirismo.
FELICIDADE
Curtindo a vida adoidado, com Matthew Broderick. Mostra a vida de Ferris Bueller, um jovem que reserva um dia da vida para aproveitá-la.
Foto: Radius Images/Latinstock
Fonte: Revista Vida Natural & Equilíbrio/Lúcia Nascimento.




